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FLORES ONLINE



Quinta-feira, 10.01.13

Ilha

Autora: Gabriela Silva

Quando eu nasci, não sabia que o meu berço era uma ilha.

Ninguém sabe, quando nasce, se a sua vida vai ser uma aventura ou um desígnio!

À medida que vamos crescendo, vamos tomando consciência do espaço que ocupamos na comunidade, começamos a reconhecer os rostos que nos são familiares e vamos tomando consciência de que pertencemos a um lugar.

Deve ter sido aí, quando a noção de pertença apareceu na minha vida, que percebi que não podia fugir da ilha. Talvez pudesse ir até à porta da igreja ou mesmo correr da Fazenda a Santa Cruz. Porém, haveria sempre um ponto onde a minha corrida tinha que parar.

Era o mar. Esse mar que define um conceito que nos acompanha pela vida toda. Ilha. Mar à volta. Pedaço de terra rodeado de água por todos os lados. Fazia lembrar o recreio da escola, o jogo das escondidas ou a cabra cega e os colegas todos a um lado a cercarem o portão para eu não fugir. E sentia uma inquietação que não sabia explicar.

Um dia terei ido a Santa Cruz e descobri o Corvo. Afinal, não estávamos sós. Havia mais ilhas. Mais tarde, na escola, aprendi que várias ilhas formam um arquipélago. Mas via as ilhas num mapa e nunca se percebe uma ilha num mapa! Eu nunca percebi.

Aos 8 anos, com a falta de vista, tive que ir ao Faial. Viver na ilha também queria dizer que não se podia ficar doente sem sair. A ilha é de gente saudável.

No Faial, sim, percebi a ilha e as ilhas mas a noção de arquipélago levou ainda muito tempo a consolidar. Só fui a S. Miguel depois de adulta, depois de já ser professora! Nesse tempo as viagens eram feitas de barco e eu era enjoadiça. Doze horas no Ponta Delgada para chegar ao Faial, já eram castigo que me bastasse!

Só quando percebi que existem milhares de ilhas no mundo é que percebi que havia incorrido no erro de pensar que só a minha ilha era uma ilha à séria.

Nos tempos que correm, basta ir ao Google, ao Google Earth ou a qualquer outro motor de busca da internet, para ter a resposta rápida e eficiente a todas as perguntas que nos apeteça colocar a essa máquina do tempo e do espaço que tudo sabe. Acontece que eu vivi sempre sem internet. Até vivi sem luz elétrica, sem água canalizada e sem estradas. E fui feliz. Mas fui incompleta, claro! (Ou não).

Os anos foram passando desde que conheço muitas ilhas, muitas cidades e até alguns países. Aprendendo todos os dias coisas novas, assimilando novas culturas, falando outras línguas. A vida é dinâmica e o tempo encarrega-se de fazer os milagres mesmo sem a nossa intervenção. Somos habitantes de um planeta incrível onde a mutação é permanente. Também me lembro do tempo em que a ilha não dependia do exterior para se sustentar porque as pessoas eram humildes mas criativas, toda a gente cultivava a terra e éramos todos muito iguais em necessidade e recursos. Meio século depois, a ilha depende em quase tudo do exterior. São façanhas daquilo que chamamos de evolução ou progresso.

Também me lembro do tempo em que as pessoas eram solidárias e compassivas umas com as outras. Hoje, nos museus é que encontramos os sinais dessa forma fraterna de viver a vida.

Mas voltemos ao presente. Em pleno século XXI nas Flores. E eu de novo a pensar que somos uma ilha única! Tantas voltas, tanto tempo, tanta cultura adquirida, para voltar ao mesmo lugar! Afinal, a ilha das Flores, no contexto dos tais milhares de ilhas que a internet nos fez desvendar, continua a ser este lugar único, magnífico, que cabe no coração de qualquer um que a queira descobrir e sentir.

Parece uma descoberta banal mas não é.

As ilhas vulcânicas dos Açores são pontos de fuga para as Américas e a emigração é transversal a todas as ilhas no século XX, década de sessenta. Nessa altura, com a guerra no ultramar, muitas famílias emigraram para livrar os filhos da tropa mas a maioria, procurava melhor vida para si e para os seus. Partir era o mote. Da ilha das Flores, no início do século, em baleeiras e a salto, aportaram à Golden Gate algumas dezenas de florentinos. Alguns desses herdaram águias em ouro e passaportes legais que levaram, mais tarde, os filhos ao mesmo destino.

Os portugueses radicados na América e Canadá fixaram-se em comunidades. Ajudavam-se uns aos outros na instalação e início de vida porque levavam da ilha esse sentido gregário, essa noção de caridade e justiça que faz com que as pessoas se sintam irmanadas apenas pelo fato de terem nascido debaixo do mesmo teto ilhéu. A ilha tem essa mística incrível que se mantém até hoje.

Alguns voltam, outros não. Mas a ilha está lá, onde estiver um ilhéu. Está a coroa do Divino Espírito Santo com uma lâmpada acesa, está um registo do Senhor Santo Cristo ou uma fotografia do mapa dos Açores como quem diz:

- Ninguém se engane. Sou daqui.

Às ilhas, chegaram pessoas de outros continentes. Muitos deles vêm para ficar. A pergunta legítima, urgente, só pode ser uma:

- Porquê aqui?

Pois foi assim que encontrei a Nina. Foi com essa pergunta que iniciamos uma amizade que já tem muita cumplicidade e muito tempo à volta da mesma questão: Porquê aqui?

A Nina nasceu e viveu em La Rochelle na França. Frequentou a universidade e a sua tese de doutoramento abordava questões como insularidade, ilhas e isolamento. No contexto dos seus estudos, veio para os Açores e foi fazendo incursões por diversas ilhas. Acabou nas Flores. Na realidade, tudo começou nas Flores. Vive aqui há quase dois anos.

Estamos a desvendar os mistérios da sua tese, relendo os inúmeros autores que se debruçaram sobre a temática ILHAS e estamos diariamente a descobrir novos conceitos e novas formas de ver esta realidade.

Talvez surja um livro extraído desta tese e da nossa conversa sobre a temática mas também pode surgir um folhetim ou uma novela. Nunca se sabe o que pode acontecer quando se fala de ilhas!

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por Susana Soares às 19:56



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