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Terça-feira, 11.12.12

Estória da Carta de jogar (Corvo)

Autor: João Maria Barcelos

 

 


 

Há muitos, muitos anos, andavam uns rapazinhos correndo o calhau quando encontraram, entalada entre duas pedras, uma carta de jogar — vinha a ser a rainha de copas. Novinha do trinque, como se saísse da fábrica. Com todo o cuidado, levaram-na para a povoação. O adro da igreja era pequeno para conter tanta curiosidade. Confusa, a patuleia interrogava-se: que seria aquilo?! Todos se puseram a dar volta ao miolo, olhando para o pequeno postal que mostrava o busto de uma donzela loira acompanhado de dois corações vermelhos, um em cada canto transverso. Que cheirava a coisa divina, isso sim, ninguém tinha dúvidas! Assim, coçando a cabeça e semicerrando os olhos, balbucia um dos mais afoitos na arte de imaginar:

Deve de ser uma santa!...

Das bocas abertas saltam ohs de espanto atordoado de incerteza. E talvez fosse mesmo — uma santinha perdida, abandonada por algum navio ora naufragado. Isso mesmo. Agora já não havia dúvidas. Era uma santa do Céu. Muito semelhante àquelas que o Senhor Padre usava para assinalar as páginas da pequena bíblia de bolso que consigo sempre trazia. Talvez até mais sagrada, a avaliar pelos bonitos corações vermelhos presentes!…

Era de agradecer ao Céu a ventura de tão inesperado acontecimento — a chegada de mais uma santa protectora!

— Santa, é com certeza, mas que santa será?

De um dos cantos do adro, logo responde um erguendo a voz:

— É muito fácil, como a gente nã sabe o nome da santa, o melhor é rezar a ladainha que o senhor Padre António— Deus lhe dê o Céu! — nos ensinou. Todos concordaram. Com a devida entoação e pausado ritmo, lá iniciam a ladainha:

— Santa Maria Madalena...

— Ora pro nobis...

— Santa Luzia...

Ora pro nobis...

Em cada invocação, cadência bem ritmada, o coro aumenta de intensidade.

— Santa Catarina...

— Ora pro nobis

— Santa Quitéria...

— Ora pro nobis...

— ...

Como já não havia santa que restasse do gineceu da divina corte celestial, e para que se não perdesse a imploração colectiva, levanta-se um deles e, na mesma entoação, brada aos céus:

— Seja que santa for...

Automaticamente, logo todos respondem em coro:

— Ora pro nobis...

 

Nota: Esta historieta era contada antigamente nas Flores para achincalhar os Corvinos.

 

Glossário:

correr o calhau — percorrer o rolo à procura achados.

achados — coisas encontradas nos rolos, trazidas pelo mar.

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por Susana Soares às 20:39



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