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Quarta-feira, 14.11.12

"A madrinha dos Açores"

Autor: Francisco Aurélio Braz    

    A viver há 18 anos na periferia do Porto, uma das minhas “paixões” foi conhecer o continente português, com todas as suas diferenças histórico-culturais.
    Percorri o país de lés-a-lés, deslumbrei-me com hábitos, costumes, tradições, gastronomia, monumentos, cidades, vilas, aldeias e lugares remotos e pitorescos.

    Inebriei-me com paisagens com diferentes matizes; ora no estio, ora no Outono, ou no Inverno. Conheci modos de vida ancestrais, como em Rio de Onor, uma pacata aldeia raiana, comunitária, situada junto ao rio que lhe deu o nome, Rio de Onor, no concelho de Bragança, cujo regime pressupõe a partilha e entreajuda de todos os habitantes. A aldeia, para além de ter um regime de governo próprio, respeitado pelos tribunais judiciais, tem também um dialecto próprio, embora já pouco falado nos nossos dias, apesar de conservar uma pronúncia mais próxima do castelhano do que do Português. As decisões são tomadas numa espécie de conselho de anciãos. As casas são cobertas com lajes de xisto, e a aldeia é cortada pela fronteira entre os dois países, Portugal e Espanha, cujos vizinhos mais próximos são “nuestros hermanos” na aldeia com nome similar Rihonor de Castilla.                        :
   Por onde passo procuro indagar das minhas origens, das nossas tradições e costumes, e, por mero acaso, tomei conhecimento da existência de outra aldeia de nome Açores. Situa-se em Celorico da Beira, uma vila do concelho da Guarda, Beira Interior Norte, lá para os lados da terra fria. Pus-me a caminho. São uns míseros 200km… só de ida, mas valeu a pena. Nesta aldeia beirã descobri tradições semelhantes às das nossas ilhas.

   Visitei a Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Açores, onde estavam depositados os símbolos do Espírito Santo, cuja coroa é semelhante às nossas, e ali se realizam também as Festas do Espírito Santo, embora em moldes muito diferentes das nossas.
   De entre as  várias  curiosidades  encontrei  algumas coincidências: nesta aldeia há dois padroeiros: Senhora do Açor e Divino Espírito Santo. Quanto a festas e romarias, têm  a  Festa  da  Senhora  do  Açor,  a   Festa do Divino  Espirito  Santo, a   Festa do Emigrante  e  a  Festa de Santo António. Conversei com os habitantes deste pequeno povoado com pouco mais de 350 habitantes – que se chamam açorianos, como nós – - falámos, obviamente,  das coincidências;  sermos  ambos açorianos e termos festas, romarias e tradições semelhantes…

Vem tudo isto a propósito de uma lenda curiosa que nos liga, de certa forma a esta aldeia: 

A Madrinha dos Açores

Há muitos anos atrás, um falcoeiro lançou um açor sem ordem do rei e, como a ave se perdesse, o rei mandou que lhe cortassem a mão. O pobre falcoeiro, aflito, pediu ajuda à Virgem e, de repente, o açor pousou-lhe na mão. El-rei, vendo este milagre, não só perdoou o falcoeiro como mandou erigir, perto de Celorico da Beira, uma igreja dedicada a Nossa Senhora dos Açores. 
 A Infanta D. Isabel, irmã do Infante D. Henrique, em pequenina ouvia contar a uma velha aia, que tinha uma casa para essas bandas, muitas histórias de milagres da Senhora dos Açores. Gravou na sua memória esses milagres e tornou-se muito devota da Senhora dos Açores.
 A notícia dos milagres da Senhora espalhou-se e o santuário no século quinze era visitado por muitos romeiros, sendo um deles Gonçalo Velho Cabral.
 Nos Paços do Limoeiro, Velho Cabral, já depois de ter sido chamado pelo Infante a participar nos descobrimentos, conversando com a Infanta D. Isabel, grande devota da Senhora dos Açores, prometeu dar esse nome a uma terra que descobrisse e ser ele o padrinho e ela a madrinha dessa terra.
 Gonçalo Velho Cabral partiu depois pelo Atlântico e, ao chegar à primeira ilha, deu-lhe o nome de Santa Maria. Aí encontrou uma linda gruta para os lados de S. Lourenço, a que deu o nome de gruta do Romeiro, lembrando as suas romagens a Nossa Senhora dos Açores.
 Cumpriu também a promessa feita à infanta D. Isabel e assim o nosso arquipélago passou a chamar-se Açores. Gonçalo Velho Cabral foi o padrinho e a Infanta D. Isabel a madrinha e colocaram as ilhas sob a protecção de Nossa Senhora.
 A Infanta, no entretanto, casou com o Duque de Borgonha e deixou Portugal, mas manteve-se muito devota da Senhora dos Açores e indicou a seu irmão muitos flamengos para virem ajudar a povoar as ilhas de que era madrinha. A Infanta levou vida santa e, quando morreu, foi sepultada na igreja da Cartuxa de Dijon, que foi transformada pela Revolução em asilo para doentes mentais.
 Muitos anos mais tarde, um recluso desse asilo viu sair do túmulo a Duquesa de Borgonha, a Infanta D. Isabel, majestosa no andar que com voz suave lhe disse:
 — Eu sou a Infanta de Portugal. Agora habito o céu e quero que tu digas às gentes das ilhas dos Açores que eu e Gonçalo Velho Cabral lhes pedimos para que se lembrem daquela que lhes deu o nome: Nossa Senhora dos Açores e Lhe dediquem ao menos uma igreja.
 Dizendo isto e dando-lhe mais alguns conselhos, desapareceu. Porém o desejo da madrinha dos Açores ainda continua por realizar-se porque não há nestas ilhas do Atlântico uma igreja dedicada a Nossa Senhora dos Açores.

Fonte: Furtado-Brum, Ângela, Açores:Lendas e outras histórias, Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana editores, 1999, p.17-18.

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por Susana Soares às 00:49



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